Um cara esperto
por Doug Batchelor
Um fato surpreendente: o Departamento de Comércio dos EUA afirma que cerca de 4 milhões de pessoas são flagradas por furto em lojas a cada ano, mas, para cada pessoa flagrada, estima-se que 35 passam despercebidas. Se essas estatísticas estiverem corretas, isso significa que 140 milhões de incidentes de furto em lojas ocorrem anualmente em um país com 260 milhões de habitantes.
De acordo com um estudo realizado em Washington, poucos ladrões de lojas roubam por necessidade; 70% estão na faixa de renda média e 20% têm renda alta. Apenas 10% seriam considerados pobres. Gerentes de hotéis estimam que um em cada três hóspedes rouba algo.
Além disso, de acordo com estatísticas de seguros, 30% de todas as falências de empresas a cada ano são resultado direto de roubos internos. Autoridades de segurança estimam que 9% de todos os funcionários roubam regularmente e que 75% de todos os funcionários em estabelecimentos de varejo roubam em algum grau, levando três vezes mais do que os ladrões de lojas.
Em Lucas 16:1-9, Jesus conta aos Seus discípulos uma parábola sobre um homem que hoje provavelmente seria descrito como “um sujeito astuto”. Ele era empregado de um cidadão rico que o havia contratado para ser o administrador, ou gerente, de sua fazenda e de todos os seus bens.
Na parábola mais conhecida como a do administrador injusto, Jesus disse que esse servo desperdiçador vinha esbanjando e administrando mal os recursos de seu senhor. Um dia, uma acusação foi feita contra o homem, e aparentemente havia provas substanciais de que ele não estava fazendo seu trabalho muito bem. Então, o senhor da propriedade chamou seu empregado e disse-lhe que ele estava prestes a ser demitido.
Além disso, o proprietário marcou uma data para o julgamento. Haveria uma auditoria — algo como uma reunião com a Receita Federal. O senhor iria examinar os registros, e, naquele momento, o administrador teria a oportunidade de apresentar seus registros para se defender das acusações.
Essa notícia ameaçadora causou medo no coração do servo incompetente, pois ele sabia exatamente qual seria o resultado da investigação. Rapidamente, ele elaborou um plano com o qual esperava salvar seu futuro.
Evidentemente, esse administrador não conhecia muito bem os livros contábeis, pois, quando reuniu todos os devedores de seu senhor, teve que perguntar a cada um: “Quanto você deve?” Ele deveria saber isso. Os registros financeiros estavam, obviamente, uma bagunça total.
O senhor poderia ter dezenas de devedores, mas apenas dois são mencionados nesta parábola. À medida que cada um relatava a situação de sua conta, o administrador astuto dizia-lhe para reduzir drasticamente a dívida, em um caso cortando-a pela metade. Dessa forma, o homem conseguiu envolver os devedores de seu senhor em sua desonestidade. Assim, quando mais tarde ele estivesse na fila do desemprego, eles não teriam escolha a não ser serem amigáveis com ele e recebê-lo em suas casas. Caso contrário, ele poderia expô-los como cúmplices em seu crime. Nem é preciso dizer que ele fez muitos amigos duvidosos fora da casa de seu senhor, usando os recursos do senhor.
Elogiado por sua desonestidade?
Em seguida, vem a parte da parábola que muitos cristãos acham difícil de entender. A Bíblia diz que, depois que o senhor revisou os livros e viu o que seu empregado desonesto havia feito, ele elogiou o homem “porque ele agiu com sabedoria” (versículo 8).
Essa afirmação intriga muita gente. Dizem: “Espere aí; Jesus está tolerando a desonestidade e o roubo?”
Definitivamente não. O administrador não foi elogiado por sua negligência e desonestidade. Afinal, foi por isso que ele estava sendo demitido. Jesus disse que o senhor o elogiou por ser astuto. Esse homem tinha sido calculista e esperto, fazendo planos para sua segurança futura às custas do senhor. Acredito que a razão pela qual Jesus disse que esse malandro agiu “com sabedoria” é porque ele estava utilizando os recursos de seu senhor para garantir seu próprio futuro. É exatamente isso que os cristãos devem fazer ao vermos o dia do Senhor se aproximando. Jesus está nos dizendo nesta parábola que precisamos pensar no futuro para estarmos preparados para o que está por vir.
Um Investimento Sábio
No final desta passagem, Jesus diz: “E eu vos digo: fazei para vós amigos com as riquezas da injustiça; para que, quando falharem [essa frase às vezes é traduzida com mais precisão como “quando elas falharem”], eles vos recebam nas moradas eternas” (versículo 9).
Essa é provavelmente a parte mais difícil de toda a parábola para muitas pessoas. Consequentemente, gostaria de compartilhar com vocês um importante princípio de estudo bíblico. Não devemos atribuir a nenhuma parábola um significado que seja contrário ao restante da Palavra de Deus.
Alguns pensaram que Jesus estava falando sobre cristãos tentando comprar sua entrada no céu. No entanto, fica claro em toda a Escritura que é impossível usar dinheiro para pagar por nossos pecados. A Bíblia diz: “Como retribuirei ao Senhor por todos os seus benefícios para comigo?” (Salmo 116:12). A salvação é um dom (Romanos 6:23). É um insulto ao Senhor pensar que podemos comprar a vida eterna. Além disso, Deus é dono do gado em mil colinas (Salmo 50:10). Por mais que tentemos, não podemos dar a Ele nada que Ele já não possua! Não devemos tentar compensá-Lo pela compra de nossa redenção. Um coração contrito é o que o Senhor deseja de você e de mim.
Jesus também não estava dizendo aos Seus discípulos para seguirem o exemplo do servo desonesto, fazendo amizade com pessoas que são canalhas e vigaristas. Para começar, isso não seria uma maneira eficaz de construir um futuro seguro! Posso afirmar com certeza que o crime não compensa, pois fui ladrão há muitos anos, quando era adolescente na cidade de Nova York. A maioria dos meus amigos também era de ladrões, e eu não teria querido contar com eles para cuidar de mim quando as coisas ficassem difíceis. Na verdade, todos nós desperdiçamos muito do nosso tempo e energia roubando uns aos outros! Não há honra entre ladrões.
Devo também salientar que, quando a Bíblia usa o termo “mammon injusto”, não está dizendo que o dinheiro é mau. É o amor ao dinheiro que Paulo identifica em 1 Timóteo 6:10 como a raiz de todo o mal. Jesus já havia advertido Seus discípulos: “Cuidado, e guardai-vos da avareza; porque a vida do homem não consiste na abundância das coisas que possui” (Lucas 12:15).
Na parábola do administrador astuto, Jesus enfatizou a importância de utilizar nossos recursos enquanto ainda estamos neste mundo, a fim de ganhar almas, fazer o bem, fazer amigos e, por fim, sermos recebidos na habitação eterna. Muitas vezes ficamos tão envolvidos nos assuntos desta vida que perdemos esse foco crucial. Jesus se referia a esse fato quando disse que “os filhos deste mundo são, em sua geração, mais sábios do que os filhos da luz” (Lucas 16:8). Muitas pessoas no mundo trabalham muito agressivamente para adquirir fama, amigos e fortuna. Em contraste, muitos cristãos investem tão pouco de seu tempo e recursos naquilo que é eterno. Se colocássemos o mesmo entusiasmo, interesse e energia em ganhar almas e parecer bem aos olhos de Deus que o mundo coloca em ganhar dinheiro e parecer bem aos olhos daqueles ao seu redor, teríamos uma igreja poderosa.
Dono do Mundo
Descobri que a parábola do servo astuto contém várias lições importantes para nós no que diz respeito à mordomia.
Em primeiro lugar, o homem rico da parábola representa Deus. Ele é nosso Mestre e o legítimo Dono de tudo no mundo (1 Crônicas 29:11; Jó 41:11). A Bíblia declara: “Eis que os céus e os céus dos céus são do Senhor, teu Deus, assim como a terra e tudo o que nela há” (Deuteronômio 10:14).
Nós, seres humanos, muitas vezes agimos como se fôssemos donos do mundo, mas, na realidade, somos meramente administradores dos recursos de nosso Pai celestial. Quando Deus criou a Terra, Ele fez o homem à Sua própria imagem e deu a Adão domínio sobre todas as criaturas vivas (Gênesis 1:27-28). Pássaros, animais, peixes e até mesmo plantas foram colocados sob seus cuidados. Deus plantou o jardim do Éden, e o homem deveria cultivá-lo e guardá-lo (Gênesis 2:15).
Infelizmente, porém, a humanidade tem sido infiel a essa tarefa de grande responsabilidade. Todos nós somos culpados, de uma forma ou de outra, por administrar mal essa confiança sagrada. Nossas demandas incessantes pelos recursos naturais do planeta têm impactado a terra, o céu e o mar de maneiras que a maioria de nós nunca para para considerar. Novas estradas, empreendimentos imobiliários e a expansão corporativa ou agrícola às vezes transformam a paisagem natural da Terra de maneiras que a tornam inóspita para uma variedade de plantas e animais. Além disso, a poluição causada por automóveis, ônibus, aviões, indústrias e construções reduz a qualidade do ar e destrói a camada de ozônio do planeta, que protege tanto as pessoas quanto as culturas alimentares da radiação nociva. E, apesar dos avanços na reciclagem e na incineração, 80% dos resíduos do país ainda são descartados em aterros sanitários. A Agência de Proteção Ambiental dos EUA afirma que cerca de 23 milhões de toneladas de resíduos perigosos são descartadas em aterros anualmente, o que coloca tanto o solo quanto as águas subterrâneas em risco de contaminação. Como diz a Bíblia: “toda a criação geme e sofre dores de parto até hoje” (Romanos 8:22).
Responsabilizados
Um segundo ponto-chave que podemos aprender ao estudar esta parábola é que o administrador percebeu que seria auditado. Seu senhor lhe disse que haveria um dia de prestação de contas. Da mesma forma, precisamos perceber que haverá um dia de julgamento. A Bíblia diz que “todos nós compareceremos perante o tribunal de Cristo” (Romanos 14:10, ênfase adicionada). Você não pode enviar outra pessoa em seu lugar.
Algumas pessoas não gostam de falar sobre isso porque acham que dizer que somos julgados pelas nossas obras é negar a salvação pela graça. A Bíblia é muito clara ao afirmar que somos salvos completamente e somente pela graça, mediante a fé, mas é igualmente evidente que somos julgados pelas nossas obras (Apocalipse 20:12; 22:12). As ações de uma pessoa testemunham se ela é salva ou não.
Todos nós um dia compareceremos diante de Deus enquanto Ele estiver em Seu trono branco, e cada ato que já praticamos será examinado (Eclesiastes 12:14). A boa notícia é que nosso registro de pecados pode ser apagado se os confessarmos e permitirmos que Jesus nos purifique de toda injustiça (1 João 1:7-9). Se convidarmos Jesus para entrar em nossas vidas e permitirmos que Ele permaneça no controle, Ele estará bem ao nosso lado no dia do julgamento, servindo como nosso Advogado (1 João 2:1).
Tempo e Dinheiro
Todos nós somos administradores, quer queiramos quer não, por isso esta parábola se dirige diretamente a cada um de nós. Há duas coisas principais pelas quais cada um de nós será responsabilizado: o que fazemos com o nosso tempo e o que fazemos com os nossos recursos.
Como já vimos, a Bíblia nos diz que 100% dos nossos recursos pertencem a Deus. Alguns de nós tendem a pensar que 90% do nosso dinheiro nos pertence e 10% a Deus. Podemos até ter dificuldade em devolver esses 10%, que a Bíblia chama de “dízimo”. O Senhor, em Sua infinita sabedoria, pede que devolvamos a Ele 10% do que Ele nos dá, como um lembrete constante de que Ele é dono de 100% e como uma demonstração de que acreditamos nisso.
O ministro metodista John Wesley disse que, como administradores de Deus, os cristãos devem “ganhar tudo o que puderem, economizar tudo o que puderem e dar tudo o que puderem”. Isso pode parecer um pouco vago à primeira vista, mas, na verdade, é um bom princípio. Não devemos ter vergonha de ganhar e investir. Na verdade, o Senhor nos diz que o servo que enterra seu talento sem investi-lo será julgado como infiel (Mateus 25:14-30). Os cristãos devem ser fiéis ao investir seus recursos e ao usar os talentos naturais e os dons espirituais que Ele lhes concedeu. Como administradores dessas coisas, somos responsáveis perante Deus por desenvolvê-las e aprimorá-las.
Todo o nosso tempo também pertence a Deus. O Senhor nos pede que reconheçamos o fato de que 100% do nosso tempo pertence a Ele, honrando-O com um dia em cada sete como dia santo. Aliás, Ele nos diz qual é esse dia. Não é qualquer dia da semana; é o sétimo dia (Êxodo 20:10). Ele estabelece tanto a quantidade quanto o dia.
As pessoas me dizem periodicamente: “Você ensina que os cristãos devem adorar a Deus apenas um dia por semana” — como se elas fossem mais santas e não fizessem nada além de adorar a Deus sete dias por semana. Eu realmente acredito que devemos adorar a Deus sete dias por semana, mas Ele não nos diz para descansar todos os sete dias da semana. Se você descansa sete dias por semana, você não é santo; você é preguiçoso. Deus reservou um dia como dia de descanso especial — um dia para passar tempo de qualidade com o Senhor.
Além disso, é muito importante que reservemos tempo para a adoração e o ministério todos os dias da semana — não apenas no sábado. É um erro pensarmos que podemos ficar tão ocupados durante a semana com o trabalho ou os estudos a ponto de termos pouco ou nenhum tempo para Deus, a família ou o próximo. Todo relacionamento de amor depende de as pessoas passarem tempo de qualidade juntas.
Como aplicar isso na sua vida
O ponto mais importante que Jesus estava tentando transmitir na parábola do administrador astuto é que, de uma perspectiva eterna, o dinheiro não tem valor a menos que seja usado para ampliar o reino de Deus. A única maneira de levarmos nosso dinheiro conosco para o céu é investi-lo na conquista de almas enquanto ainda vivemos aqui na terra. Usar os recursos que Deus nos deu para ajudar a trazer as pessoas perdidas ao nosso redor a um relacionamento salvador com Deus é a maneira de “acumular para vocês tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem corrompem, e onde os ladrões não arrombam nem roubam” (Mateus 6:20).
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