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É pecado ser tentado?

É pecado ser tentado?

Nenhum cristão em crescimento no mundo pode ficar indiferente ao problema traumático da tentação. Não há idade em que as escolhas morais e as lutas do espírito não nos confrontem. A tentação pode atacar em diferentes momentos e em diferentes questões, mas estará sempre conosco enquanto estivermos na carne.

Quando eu era menino, lá na Carolina do Norte, sempre sabíamos quando a fruta estava madura nos pomares. Um certo grupo de meninos da vizinhança se dirigia para lá, e todos diziam: “Deve ser aquela época de novo”. Ora, os demônios são mais espertos do que adolescentes e, enquanto o fruto da sua vida estiver azedo e imaturo, eles podem deixá-lo completamente em paz. Mas quando esse fruto estiver maduro, todos os demônios podem aparecer de repente para tentar roubá-lo de você.

Isso significa que as pessoas mais espirituais são as mais propensas a enfrentar as tentações mais severas. Elas têm algo que Satanás gostaria de estragar ou destruir.

Isso significa que é uma honra ser especialmente tentado pelo diabo? Talvez sim. De certa forma, é um elogio ter ladrões tentando invadir sua casa. Isso mostra que você, pelo menos, tem a reputação de ter dinheiro. E quando os demônios aparecem, mesmo que seja uma batalha, você pode saber que o Senhor ainda está trabalhando em sua vida.

Agora estamos preparados para examinar um dos textos mais surpreendentes de toda a Bíblia. “Meus irmãos, considerem motivo de grande alegria quando caírem em diversas tentações” (Tiago 1:2). Aparentemente, os escritores da Bíblia também estavam convencidos de que a tentação pode ser algo bom. No entanto, essa ideia está em total conflito com todas as dolorosas experiências humanas que sofremos ao enfrentar a tentação. A maioria das pessoas a considera um mal necessário, de influência totalmente destrutiva.

Certamente precisamos entender que há alguns aspectos redentores na tentação. Em primeiro lugar, ela prova que temos discernimento moral. Ninguém pode ser tentado a menos que haja escolhas significativas a serem feitas. Questões de certo e errado devem ser claramente distinguidas. Pessoas que veem tudo no âmbito moral como uma espécie de cinza opaco não podem passar por grandes batalhas da mente.

É preciso ter uma consciência especial do bem e do mal para ser tentado. Muitos religiosos modernos parecem ter apenas consciências pequenas e medíocres, o que pode explicar a falta de conflito espiritual. Que contraste com os grandes personagens do passado, que parecem ter travado dramáticos combates corpo a corpo com o diabo. O confronto de Martinho Lutero com Satanás foi tão real que dizem que ele jogou um tinteiro em seu algoz.

Você deve, portanto, se congratular se se encontrar tentado. Isso certamente implica que você está enxergando as questões corretamente. Mas agora surge a questão mais crucial: depois de reconhecermos a verdadeira situação diante de nós, como encontramos a força para escolher o bem em vez do mal? Paulo percebeu a urgência dessa questão quando escreveu sua primeira carta à igreja de Corinto. Ninguém poderia ter enfrentado escolhas mais óbvias do que aqueles poucos cidadãos cristãos de Corinto. O mundo pagão da carne destacava-se em vívido contraste com o estilo de vida de abnegação de sua fé recém-descoberta. Não havia dúvida para eles sobre o que era certo e errado, e Paulo escreveu: “Não vos sobreveio tentação que não fosse comum aos homens; mas Deus é fiel, e não permitirá que sejais tentados além do que podeis suportar; mas com a tentação também vos dará o meio de escapar, para que a possais suportar” (1 Coríntios 10:13).

Este versículo contém uma riqueza de encorajamento inspirado para qualquer um que esteja lutando contra um mal reconhecido. O apóstolo advertiu contra a tentação de nos considerarmos uma exceção. É tão fácil para nós sentirmos que ninguém mais jamais teve que enfrentar o inimigo da mesma maneira que nós temos que enfrentar. Nosso fardo parece mais pesado e nossa batalha parece mais severa do que qualquer outra que os outros tenham enfrentado. Paulo disse que isso simplesmente não é verdade, e não devemos nos permitir pensar assim nem por um momento. Isso é coisa velha. Não importa o que soframos, a mesma tentação já se abateu sobre um milhão de outras pessoas muito antes de nascermos.

Como gostamos de considerar nossa situação diferente de todas as outras! Isso nos dá uma racionalização muito inteligente, caso percamos a batalha e cedamos à tentação. Se nosso caso é tão diferente, Deus não pode nos julgar tão severamente quanto aos outros que passam por um teste muito mais fácil. O empresário se consola dizendo que sonegar impostos geralmente não é a coisa certa a se fazer, mas que ele sofreu mais perdas por furtos em lojas do que qualquer outra pessoa. Além disso, ele tem sido mais discriminado pelos burocratas do governo.

O marido infiel argumenta: “Meu problema é único. Minha esposa é fria e indiferente, e ninguém entende as pressões que estou sofrendo.

”Anote isso: quase todo pecado será precedido por estas palavras — “Eu sou uma exceção.” Devemos nos lembrar constantemente de que essa tem sido a psicologia de Satanás há seis mil anos. Tudo o que ele tentou fazer no deserto da tentação foi convencer Jesus de que Ele era diferente. Cada uma das três abordagens que Satanás usou baseava-se na ideia de que, como Filho de Deus, Ele poderia fazer coisas que ninguém mais poderia fazer — transformar pedras em pão ou pular do pináculo sem se machucar.

O Propósito da Tentação

Agora Paulo se apressa em nos assegurar que “Deus é fiel, e não permitirá que sejais tentados além do que podeis suportar”. Isso é tranquilizador e reconfortante! Mas por que Ele permitiria que conflitos agonizantes envolvessem Seu povo? Por que não simplesmente remover toda a tentação? A resposta se encontra em Tiago 1:2–4. “Meus irmãos, considerem motivo de grande alegria quando caírem em diversas tentações; sabendo isto: que a prova da vossa fé produz paciência. Mas que a paciência tenha a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem falta alguma.”

Uma imagem nova e satisfatória começa a surgir nesses versículos. A tentação oferece oportunidade para conquista e crescimento espiritual. Não é uma vergonha ser tentado. Se não houver batalhas, não pode haver vitórias por meio de decisões firmes. Tampouco pode haver nobreza de caráter. A virtude é a inocência provada. A bondade não provada pode não ser bondade alguma. Eu poderia me isolar em uma caverna solitária em algum lugar e não cometer um pecado exterior por uma semana inteira simplesmente porque não teria contato com nenhuma outra pessoa. Essa semana provaria que sou um indivíduo virtuoso? De modo algum. O cristianismo não é meramente a ausência de comportamento errado na vida; tem a ver também com uma prática ativa de virtudes positivas. Minha vida na caverna poderia revelar mais do que eu gostaria que revelasse. Eu seria bom, mas bom para nada! A pessoa que evita toda tentação ao evitar o contato com todas as pessoas pode não causar mal, mas também não faz nenhum bem. Ela é moralmente anêmica.

Agora chegamos à afirmação de Paulo de que Deus “providenciará uma saída para que possais suportá-la”. Isso significa que sempre haverá um caminho fácil para sair de toda experiência de tentação? Não. Significa apenas que, em toda provação moral, Deus nos proporcionará uma alternativa. Sempre haverá dois caminhos que conduzem para fora de cada tentação — um, o caminho sedutor do mal; o outro, um caminho atraente do bem. Paulo está dizendo que somos puxados em duas direções toda vez que somos tentados. Ao mesmo tempo em que somos tentados à ira, o Espírito Santo nos leva ao autocontrole. Quando somos tentados a ser desonestos, o Espírito Santo nos leva a agir com integridade.

Um menino estava em uma loja com a mão dentro do cesto de maçãs, acariciando a fruta atraente. Finalmente, o lojista se aproximou do menino e perguntou: “Filhinho, você está tentando roubar minhas maçãs?” Rapidamente, o menino respondeu: “Não, senhor. Estou tentando não roubar.” Podemos facilmente entender o que ele quis dizer com essa resposta honesta. Todos nós já lutamos com essas duas vozes e essas duas escolhas.

Agora, vamos olhar para o fim dessas duas trilhas que se desenrolam a partir de cada experiência de tentação. A tentação que torna um caráter nobre por meio da resistência tornará outro caráter mesquinho e ignóbil ao ceder a ela. Essa lei da natureza humana determina que nunca mais seremos os mesmos depois de enfrentar uma tentação. Ou obteremos a vitória e ficaremos mais fortes para a próxima que surgir, ou cederemos e ficaremos mais fracos para a próxima que enfrentarmos. Nosso caráter é edificado ou destruído dependendo da escolha que fizermos.

Devemos buscar a tentação?

Isso não fornece um argumento poderoso para provar que a tentação pode ser algo bom? De fato, fornece. Mas também pode ser abusada se não tomarmos cuidado. Como a vitória pode nos trazer tantos benefícios, devemos sair em busca de uma oportunidade para enfrentar o inimigo? Se a tentação pode ser uma oportunidade tão gloriosa para desenvolver o caráter, por que não orar “Leva-nos à tentação” em vez de “Não nos deixes cair em tentação”? Alguns podem argumentar que precisam de uma injeção de novas forças e começam a procurar uma tentação agradável e tentadora para que possam obter uma vitória e fortalecer seu caráter.

O que há de errado com esse raciocínio? Existe uma resposta convincente para ele? Aqueles de nós que possuem essa liberdade de escolha devem orar para que não a utilizemos indevidamente, colocando-nos nas garras de circunstâncias que possam nos testar além de nossas forças. O fogo controlado no fogão é ótimo, mas não é muito bom fora de controle no telhado. É melhor evitar a isca do que lutar na armadilha depois que ela se fechar.

O fato é que subestimamos nossas próprias capacidades. Não compreendemos nossos pontos fortes e fracos. Por essa razão, ninguém tem justificativa para buscar deliberadamente uma situação de provação. Não temos promessa de libertação nessas circunstâncias. A Bíblia diz: “O Senhor sabe livrar os piedosos das tentações” (2 Pedro 2:9). Mais uma vez, Deus promete: “Porque guardaste a palavra da minha paciência, eu também te guardarei da hora da tentação” (Apocalipse 3:10). Ele é o único qualificado para organizar as circunstâncias de nosso teste. Ele permitirá que se desenvolva ao nosso redor apenas aquilo que Ele vê que precisamos e temos força para suportar.

Cada um de nós tem pontos de fraqueza particularmente vulneráveis em nosso caráter. É também uma triste verdade que existem momentos específicos em que estamos mais suscetíveis de sermos vencidos pelo inimigo. Satanás conhece bem exatamente aquele momento em que nossa resistência estará mais baixa, e ele também compreende nossa fraqueza individual. Podemos ter certeza de uma coisa: seu ataque mais forte contra nós virá em nosso momento de maior fraqueza e no ponto mais fraco de nosso caráter.

Que pensamento solene! Com um inimigo assim, nunca podemos nos sentir seguros em nossa própria força. Somos tão fortes quanto somos no momento mais fraco de nossa vida. Nosso caráter é tão forte quanto seu elo mais fraco. Esses fatos excluem para sempre a possibilidade de que possamos deliberada e seguramente nos expor a provações a fim de fortalecer o caráter.

O pecado começa na mente

Outro fato interessante sobre a tentação é que ela sempre ataca a mente primeiro. Todo pecado tem sua origem nos pensamentos muito antes de se manifestar como um ato do corpo. Jesus disse: “Porque de dentro, do coração dos homens, procedem maus pensamentos, adultérios, fornicações, homicídios, furtos, avareza, maldade, engano, lascívia, olho mau, blasfêmia, orgulho, insensatez” (Marcos 7:21, 22). Quase todas as categorias do mal estão incluídas nessa longa lista de pecados que brotam do coração. Paulo descreveu a luxúria como “satisfazer os desejos da carne e da mente” (Efésios 2:3). O texto grego diz, com mais precisão, “desejos dos pensamentos”.

Justamente neste ponto, devemos fazer algumas distinções cuidadosas. É muito importante compreender que o desejo, em si mesmo, não é errado. Na verdade, Deus colocou certos apetites e propensões poderosos dentro de nossa natureza humana. Não há nada de errado com esses impulsos, desde que sejam devidamente controlados e direcionados. Isso inclui ambição, temperamento, sexo e todas as outras disposições básicas. O erro surge de uma única maneira. Quando o desejo ultrapassa os limites e busca gratificação fora da vontade de Deus, ele se transforma em luxúria.

Todos os dias somos confrontados com imagens, livros, palavras etc., que são estimulantes e atraentes para a mente. É por meio desses estímulos emocionais que a mente frequentemente se depara com desejos profanos. A tentação da luxúria está presente, mas isso não é pecado. Enquanto esses desejos não forem gratificados ou realizados, eles não são errados. É somente quando a mente responde ao desejo, aceitando-o e mantendo-o, que a tentação se transforma em pecado.

Tiago descreve isso desta forma: “Mas cada um é tentado, quando atraído e seduzido pela sua própria concupiscência. Então, quando a concupiscência concebe, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte” (Tiago 1:14, 15). Aqui, o ato do pecado é comparado ao processo de concepção e reprodução. Assim como uma abelha transporta pólen de uma flor aberta para outra a fim de fertilizar a flor, assim também o coração de cada indivíduo está aberto à introdução de pensamentos e desejos profanos. Se essas sementes puderem se misturar com a natureza carnal, elas produzem uma colheita inevitável de pecado e, finalmente, a morte. Nossa única proteção é colocar uma guarda diante de todas as vias da alma para examinar cada pensamento que entra. Pela graça e força de Cristo, todo desejo maligno pode ser reconhecido e eliminado, de modo que não tenha oportunidade de permanecer na mente como um catalisador da luxúria e do pecado.

Isso toca em uma questão que muitas vezes se torna extremamente delicada. Quão fácil é dizer que podemos monitorar a mente e eliminar os pensamentos clamorosos do pecado. Mas será que os seres humanos, mesmo em união com Cristo, conseguem realmente vencer a tentação de abrigar pensamentos impuros? A Bíblia diz que sim. “Porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas poderosas em Deus, para derrubar fortalezas; derrubando conceitos e tudo o que se exalta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2 Coríntios 10:4, 5).

Como é possível essa vitória total? Ela é alcançada por meio da oração, da fé ou do esforço pessoal? Basicamente, devemos concordar que esse tipo de libertação vem somente por meio do Espírito de Deus, que habita em nós e nos capacita. Não há força suficiente na carne para vencer um único desejo maligno. No entanto, a vitória não é obtida sem nossa forte cooperação e ação. Deus não opera milagres para libertar aqueles que não usam o próprio poder que lhes foi dado por Deus para evitar o mal.

Guarde as vias da mente

Mais uma vez, voltamos à questão de convidar a tentação. Até onde devemos ir para nos proteger da vulnerabilidade ao pecado? Jesus estabeleceu um princípio muito claro no Sermão da Montanha. “E, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e lança-o de ti; pois é melhor para ti que um dos teus membros pereça, do que todo o teu corpo seja lançado no inferno. E, se a tua mão direita te escandalizar, corta-a e lança-a de ti; pois é melhor para ti que um dos teus membros pereça, do que todo o teu corpo seja lançado no inferno” (Mateus 5:29, 30).

Obviamente, Jesus não estava falando do olho literal ou da mão literal. Alguém poderia mutilar violentamente seu corpo e ainda assim continuar tão perverso como sempre. Cristo estava falando sobre a ocupação da mão e aquilo em que o olho se concentra.

Se nos encontrarmos em um emprego ou em qualquer situação física que abra uma porta para a tentação, o conselho é “cortá-la”. Em outras palavras, afastar-se de qualquer vocação que envolva uma tentação suscetível de levar ao pecado. O Mestre indicou que qualquer meio radical deve ser usado para evitar situações que possam sobrecarregar com pecados que destroem a alma. Até mesmo um cargo de emprego deve ser abandonado, em vez de arriscar a perda espiritual da vida eterna. Se nos depararmos com alguma cena que possa suscitar pensamentos ou ações pecaminosas, Jesus nos ordena que a afastemos de nossa vista por todos os meios possíveis. A expressão “arrancá-la” transmite a ideia de uma ação drástica, se necessário.

Que argumento persuasivo contra os meios de comunicação corruptos de hoje! O apelo sedutor da televisão é provavelmente o mais poderoso incitamento ao pecado no século XX. As palavras de Cristo têm uma aplicação muito explícita para aqueles que têm dificuldade em controlar o aparelho de televisão. O conselho de Nosso Senhor de “arrancá-lo” parece traduzir-se em “jogá-lo fora” se o olho continuar a ser ofendido por imagens provocativas na tela. Muito melhor, disse Jesus, perder a vantagem do material educativo do que perder a alma ao assistir a programas degradantes. Se não for possível controlá-lo totalmente, não se arrisque! Arrancá-lo!

Será que Jesus nos pediria para renunciar a algo bom apenas porque poderia haver um pouco de poluição mental envolvida? Sim. É muito melhor levar o que o mundo chama de uma existência de mente estreita — uma vida com um olho só — do que levar uma vida chamada de plena e perder a alma. “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz diariamente e siga-me” (Lucas 9:23). Dizer não às coisas desejáveis e carnais é um requisito básico do discipulado cristão, se essas coisas representarem tentações que possam levar ao pecado.

O que estou realmente dizendo é que, mesmo com uma mente espiritual, precisamos seguir os grandes princípios básicos da vitória sobre a tentação. Há lugares a serem evitados se quisermos ter vitória total. Há requisitos devocionais se quisermos estar em total harmonia com Cristo. As vias da mente devem ser guardadas se quisermos derrotar o pecado em seu início.

Que diferença tremenda faria se todos pudessem compreender claramente a prioridade dada a uma mente pura. Satanás criou um mundo enganador e artificial da carne que exerce um forte apelo sobre a mente de cada homem, mulher e criança. Somente reconhecendo as armadilhas e apropriando-nos de todas as armas da guerra de Cristo é que teremos sucesso em resistir à tentação.

Sem confiança na carne

Embora algumas pessoas pareçam capazes de resistir a tudo, exceto à tentação, outras parecem quase complacentes em relação ao problema. É possível ter uma confiança equivocada na carne e em sua capacidade de lidar com a tentação? Paulo escreveu: “Quem pensa que está firme, cuide-se para não cair” (1 Coríntios 10:12).

Você já percebeu como algumas das pessoas mais improváveis caem nas armadilhas dos pecados mais improváveis? Muitas vezes, uma pessoa é vencida justamente na área em que se sente mais forte. Como isso acontece? Será que nos tornamos descuidados justamente no ponto de nossa suposta força? Parece que sim. Não há nenhuma explicação inspirada sobre como Moisés pôde sucumbir à impaciência ou à ira. A Bíblia o apresenta como o homem mais manso que já existiu. Tal pessoa poderia ceder a muitas outras tentações, mas certamente não à paixão. No entanto, esse é exatamente o pecado que impediu Moisés de entrar na Terra Prometida. Ele feriu a rocha com ira, em vez de falar com ela como Deus ordenara (Números 20).

A grande força de Elias era a coragem. Ele resistiu sozinho a todas as forças entrincheiradas de Baal no Monte Carmelo. Com incrível ousadia, ele desafiou qualquer um que se desviasse do caminho da obediência total a Deus. No entanto, imediatamente após sua disputa bem-sucedida com os profetas de Baal, ele fugiu como um covarde diante das ameaças da rainha Jezabel. Isso estava tão fora do caráter do destemido tishbita! Será que ele baixou a guarda na área de sua lendária força?

Abraão se destacava por sua confiança total em Deus. Ele é chamado de pai dos fiéis. No entanto, mentiu ao rei do Egito por medo de que sua esposa lhe fosse tirada. Esses grandes personagens bíblicos não demonstram de forma dramática como Satanás ataca o ponto em nossas vidas onde há falta de vigilância? Ninguém deve pensar que está imune aos ataques de Satanás por causa de algumas virtudes demonstráveis.

Também é muito interessante notar que ninguém realmente antecipa o resultado de ceder à tentação, já que ela geralmente se aproxima pela linha de menor resistência. Geazi viu as cores brilhantes das vestes sírias — não as cicatrizes da lepra que o acompanhariam até o túmulo. Acã viu a cobiçada moeda de ouro babilônico — não a ira de uma nação que se levantaria para apedrejá-lo. Judas não conseguiu enxergar, além das moedas de prata reluzentes, seu remorso terrível e seu suicídio.

Outra grande verdade sobre a tentação, que deve trazer coragem a todos nós, é que muitas tentações deixarão de nos atormentar à medida que tornarmos a boa escolha um hábito. Assim como nosso cérebro está programado para fazer o mal ao ceder constantemente ao compromisso e à derrota, ele também pode ser programado para a vitória por meio de decisões firmes e escolhas corretas. A maior parte da terrível luta desaparecerá de nossa experiência à medida que nossa natureza se adapta a um programa de vitória habitual.

Alguém escreveu um artigo intitulado “Não Decida Ir à Igreja”, que gerou considerável controvérsia. Mas a premissa básica do artigo era simplesmente que não deveríamos ter que debater sobre a decisão de frequentar a igreja. Assim como não lutamos três vezes ao dia com a decisão de comer, também não deveríamos ter que tomar decisões difíceis sobre ir à igreja todas as manhãs de sábado. A repetição de uma prática acaba por transformá-la em uma resposta automática, e a tentação de ficar longe da igreja deixa de existir. O mesmo pode acontecer com muitas outras formas de tentação, à medida que usamos nossa vontade para estabelecer padrões vitoriosos de pensamento e ação.

Você às vezes se sente tentado a não orar ou ler a Bíblia pela manhã? Provavelmente todo cristão já enfrentou essa tentação pelo menos uma vez. É possível tirar o poder dessa tentação específica? Sim, é possível. Milhares de pessoas estabeleceram um padrão de devoção diária tal que nem sequer consideram a possibilidade de não reservar tempo para isso. A tentação realmente não existe mais para elas. Elas seguiram o conselho de Paulo: “Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem” (Romanos 12:21).

Até agora, descobrimos alguns dos truques psicológicos que Satanás usa para levar as pessoas ao pecado. Também concluímos que o pecado se origina na mente, o que significa que deve ser dada uma atenção muito especial à proteção desse alvo vulnerável ao ataque do inimigo. Sugerimos colocar guardas específicos diante das vias da mente para bloquear pensamentos e desejos suspeitos. Recomendamos enfaticamente usar a vontade para dizer não aos impulsos da carne. Todo esse conselho é bom, mas também é inútil se uma verdade não for reconhecida. Agora, passamos ao cerne do problema da tentação/pecado.

O poder de um “não” positivo

Todos os processos de escolha, livre arbítrio e decisão estão centrados na misteriosa massa cinzenta do cérebro. Foi aqui que Satanás fez seu primeiro ataque a Eva. Para fazê-la pecar, Satanás precisava influenciá-la a abrir sua mente para alguém além de Deus. E a única maneira de alcançar sua mente era através da via emocional dos sentidos. Assim, a Bíblia diz que ela “viu que a árvore era boa para comer, e que era agradável aos olhos, e uma árvore desejável para tornar sábio” (Gênesis 3:6).

Observe que a serpente só conseguiu corromper a mente dela por meio das coisas que ela viu e ouviu. Foi a beleza atraente do fruto, somada ao som hipnotizante da voz lisonjeira, que finalmente levou à queda de Eva.

Anote bem: é somente utilizando os caminhos que estão sob nosso controle consciente que Satanás consegue contaminar a mente. Em outras palavras, precisamos dar nosso consentimento antes que um ato de pecado possa ser cometido. Ninguém obrigou Eva a deixar seu marido, caminhar até a árvore, ouvir a serpente ou comer o fruto. Cada passo foi um ato voluntário em resposta a algum apelo sensorial. Deus havia colocado em Eva uma vontade santa e uma mente perfeita e sem pecado. Por meio desses poderes santificados, uma separação total do pecado sempre foi possível para ela. No entanto, ela escolheu desobedecer a Deus.

Nosso caso não é tão claro e simples assim. Não possuímos por natureza o tipo de mente pura e imaculada que Eva tinha. Todos nós herdamos os corpos e mentes fracos e comprometidos que a desobediência produziu em Adão e Eva. Ao ceder a Satanás e escolher obedecê-lo em vez de a Deus, Eva perdeu instantaneamente seu poder de resistir à tentação. Sua vontade enfraqueceu, e a lei do pecado começou a operar em seu corpo para produzir a morte. Por aquele único ato deliberado, ela condenou para sempre a si mesma e sua descendência a uma vida de luta incessante e derrota.

Se Deus não tivesse imediatamente apresentado o plano de salvação em Gênesis 3:15, toda a raça humana teria seguido o caminho do pecado deliberado de Eva e teria morrido sem esperança. A semente prometida da mulher ofereceu esperança para que os homens degenerados revertessem o efeito do pecado de Adão e Eva. Por meio de Cristo, a sentença de morte poderia ser revogada e a mente de inimizade poderia ser substituída pela mente de Cristo. “Tende em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus” (Filipenses 2:5).

Seria inútil abordar o tema da tentação sem reconhecer que a resposta definitiva para esse problema é uma rendição espiritual a Cristo. Todo o conselho do mundo e todo o conhecimento das artimanhas do pecado serão menos do que inúteis se a mente não se render a Cristo.

A tentação do segundo Adão

Considere por um momento como Jesus abriu esse caminho de fuga da tentação para todos os que o aceitarem. Ele veio como o segundo Adão do mundo e enfrentou o inimigo exatamente como o primeiro Adão teve de enfrentá-lo. E, no entanto, é claro, não foi exatamente como Adão e Eva foram testados. Jesus não encontrou o tentador em um jardim encantador cercado de beleza. Ele lutou contra Satanás em um deserto selvagem e desolado.

O primeiro Adão tinha acesso a toda variedade possível de alimentos deliciosos, mas Jesus estava emaciado e fraco após quarenta dias sem comida nem bebida. O primeiro Adão enfrentou o tentador com a força de um corpo perfeito, imaculado por qualquer falha hereditária. Jesus assumiu a humanidade sobre Si mesmo depois que 4.000 anos de pecado enfraqueceram a raça humana. Ele aceitou todas as desvantagens e responsabilidades hereditárias que o pecado impôs aos descendentes físicos do primeiro Adão.

Ninguém jamais compreenderá plenamente a natureza daquela batalha no deserto. Satanás havia antecipado esse confronto por anos, e talvez por séculos. Naquelas três tentações sutis, ele combinou toda a expertise psicológica que sua mente genial podia oferecer. Na verdade, Satanás apelou para as mesmas emoções humanas básicas que haviam destruído o primeiro Adão — apetite, presunção e posição. Mas, graças a Deus, o enganador não conseguiu encontrar em Cristo nada que respondesse às suas seduções. O segundo Adão desarmou e derrotou completamente o diabo justamente nas áreas que haviam sido tão eficazes contra o primeiro Adão.

Precisamos expandir nossas mentes em um esforço para compreender essa verdade. Por que o grande Deus Criador do universo se dispôs a se submeter às indignidades daquela experiência agonizante? Ele não já havia provado Seu poder sobre o maligno ao expulsá-lo do céu? Por que Ele deveria voluntariamente se colocar em tão terrível desvantagem no meio de outro conflito com Satanás?

A resposta é simples. O diabo havia roubado a obra-prima da criação de Deus. A humanidade, a quem Deus amava, havia sido sequestrada pelo inimigo, ainda que voluntariamente, e mantida em cativeiro. Duas coisas aconteceram naquele dia em que Adão foi conquistado por Satanás. Primeiro, ele e seus descendentes caíram imediatamente sob a sentença irrevogável de morte que Deus havia pronunciado sobre os transgressores de Sua lei. Segundo, toda a sua natureza moral ficou tão traumatizada e degradada pelo pecado que nunca seria possível para Adão ou sua posteridade abster-se de pecar repetidamente.

Você percebe o problema? O que Deus poderia fazer para libertar as criaturas que Ele amava das consequências devastadoras de seu pecado? Elas estavam condenadas à morte e haviam perdido o poder de obedecer. Satanás exultou. Ele argumentou que o próprio Deus não poderia recuperar o homem sem alterar Sua lei ou comprometer Sua justiça. Por fim, Satanás havia encontrado uma maneira de provar as acusações que havia feito contra Deus. Na presença dos anjos santos, ele acusou Deus de ser injusto e exigir uma obediência impossível.

Agora ele se regozijava com o dilema de Deus, pois essas acusações pareciam ter se provado verdadeiras. O homem aparentemente não podia obedecer. Agora Deus teria que deixar o homem morrer em seu pecado, ou mudar Sua lei, ou aceitar transgressores em Seu reino — assim deve ter raciocinado Satanás.

Deus enfrentou o problema com uma estratégia tão incrível que nenhum demônio ou homem poderia ter sequer imaginado. Satanás ficou atordoado com suas implicações. Resumidamente, envolvia Deus tomar o lugar do homem e aceitar a punição da morte por ele. Nem a lei nem a sentença por violá-la foram alteradas.

Para morrer pelo pecado do homem, porém, Deus teve que assumir uma natureza sujeita à morte. A divindade não podia morrer. Jesus aceitou as condições indescritíveis de nascer na família perdida e condenada de Adão. Na encarnação, Deus não apenas providenciou Sua morte expiatória pelo pecado, mas também uma refutação dramática da acusação de Satanás de que o homem não poderia viver sem pecar. Para tornar a demonstração absolutamente incontestável por parte de Satanás, Jesus submeteu-Se às mesmas limitações humanas de todo filho de Adão. Ele foi tentado em todos os pontos como nós somos tentados, mas venceu completamente cada uma delas usando o mesmo poder divino que está acessível a cada um de nós. Ele continuava sendo Deus total e completamente, mas também era totalmente homem. Ao enfrentar essas tentações, Ele voluntariamente se restringiu aos mesmos recursos espirituais disponíveis ao homem hoje. Assim, Ele desmentiu a mentira de Satanás de que a obediência é impossível para a humanidade.

Tudo o que estava perdido foi restaurado

Com uma vida de obediência perfeita para trás, Jesus entregou Sua vida para cumprir a pena pela lei quebrada. Sua morte e ressurreição Lhe conferiram a autoridade final para reverter toda a devastação humana causada pela vitória de Satanás sobre Adão. Agora Jesus tinha em Suas mãos tudo o que o homem poderia precisar para ser restaurado ao plano edênico de perfeição e santidade de Deus. Embora tivesse lhe custado um preço infinito para obtê-lo, Ele ofereceu tudo isso como um dom gratuito a qualquer um que quisesse recebê-lo.

O que Ele tinha a oferecer? Libertação da sentença de morte por meio de Sua própria assunção da culpa e da pena, crédito por uma vida perfeita de obediência por meio de Sua justiça imputada e vitória na carne sobre toda tentação que Satanás possa conceber.

Muitos que receberam com alegria os dois primeiros dons têm tido medo de aceitar o terceiro. Por que deveríamos hesitar em ser uma demonstração de Deus? Ao receber Seu poder de vitória sobre a tentação, confirmamos o propósito original de Deus e expomos as mentiras blasfemas de Satanás pelo que elas realmente são.

Neste momento, Satanás ocupa uma posição frágil como governante temporário deste mundo. Ele observa, em desespero, enquanto Jesus e o Espírito Santo rompem as barreiras do pecado para libertar multidões de seus cativos. O poder da carne é quebrado toda vez que o eu se rende a Cristo.

A tentação perde seu poder quando Ele entra na vida. Com uma única decisão neste momento, a vitória está garantida. O segundo Adão veio para libertá-lo da velha natureza pecaminosa do primeiro Adão. Ele quer que você mude de família. Não há esperança de vencermos a tentação a menos que saíamos da família derrotada e moribunda do primeiro Adão.

Jesus oferece a cada um de nós a vitória que Ele conquistou sobre Satanás na carne. Poderíamos suspeitar desse dom se Ele não tivesse vencido na mesma natureza humana que possuímos. Agora Ele quer entrar na sua vida e viver a mesma vitória em você dia após dia.

Uma das minhas histórias favoritas diz respeito a Agostinho, cuja juventude foi marcada por grave libertinagem e imoralidade. Quando jovem, ele foi levado por poderosas correntes de emoção por duas mulheres em sua vida. Como um pedaço de madeira à mercê da maré, Agostinho era atraído para sua piedosa mãe, Mônica; e depois, para uma mulher dissoluta que parecia mantê-lo sob um feitiço maligno. Apesar das orações de sua mãe por ele, Agostinho continuou um caminho de compromissos miseráveis. Às vezes, ele se sentia atraído pelos ensinamentos justos de Mônica, mas então a influência maligna da outra mulher o puxava de volta. A batalha foi longa e terrível.

Mas então chegou aquele dia glorioso em que, em seu jardim, Agostinho se converteu por meio de uma voz misteriosa que o direcionou para Romanos 13:13, 14. Quando leu esse texto, as escamas caíram de seus olhos, e ele correu para transmitir a boa notícia à sua mãe. Ela ficou encantada com a mudança dramática em seu filho.

Enquanto caminhava pelas ruas de Cartago no dia seguinte à sua conversão, Agostinho viu a mulher que fora sua companheira no pecado. Ela vinha diretamente em sua direção e não havia como evitar o encontro. Sem sequer reconhecer a presença dela, Agostinho passou por ela sem dizer uma palavra. Ela parou, incrédula, e então correu atrás dele em um estado de indignação. Agarrando-lhe o braço, ela gritou: “Agostinho! Agostinho! Sou eu!” Ele parou, olhou para ela e disse: “Sim, mas não sou eu.” Em seguida, continuou a caminhar pela rua e saiu da vida dela para sempre.

Agostinho disse a verdade naquele dia porque ele era, de fato, uma nova pessoa. É somente na força do segundo Adão que seremos capazes de nos afastar da tentação. O pecado perde seu apelo para aqueles que amam a Cristo e tomaram a decisão de servi-Lo em vez de a si mesmos.

Satanás não terá problema em vencer os filhos do primeiro Adão. Ele derrotou o pai e também pode lidar com os filhos. Por outro lado, ele não encontrará maneira de conquistar aqueles que se valem da força do segundo Adão.

Este é o caminho de fuga prometido àqueles que o receberem. Jesus simplesmente transmite aos Seus filhos espirituais a vitória total que conquistou sobre o diabo enquanto vivia aqui em carne humana.

Este é o cerne da questão. Sob esse poder, o cristão usa sua vontade rendida para escolher o estilo de vida que evita as armadilhas ocultas da tentação. Ambos os fatores são muito importantes para conquistar a vitória — ter Cristo no coração e evitar situações de tentação presunçosas. Que Deus nos guie na aplicação desses princípios espirituais à nossa própria experiência.