O Rico e Lázaro

O Rico e Lázaro

Pastor Doug Batchelor


Um fato surpreendente: Craig Coley, um homem da Califórnia que foi injustamente condenado por matar uma ex-namorada e o filho dela há quatro décadas, é considerado inocente, libertado e recebe uma indenização de US$ 21 milhões da cidade de Simi Valley. Depois de ficar preso por 39 anos, o prisioneiro injustamente detido se torna um milionário feliz. Depois, há Bill Cosby, que já foi conhecido e amado por todos como o “pai favorito da América”. Agora, o comediante milionário em desgraça definha na prisão, onde provavelmente passará o resto da vida, após ser condenado por agressão sexual. Que contraste!


As pessoas sempre foram fascinadas por histórias irônicas de ascensão da pobreza à riqueza — e, sim, da riqueza à pobreza. Talvez seja por isso que Jesus contou a surpreendente história de duas vidas muito diferentes com dois destinos distintos — a parábola de Lázaro e do homem rico.

Com uma multidão ansiosa reunida ao seu redor, incluindo alguns fariseus à espreita nas margens, Jesus contou uma parábola sobre dois homens que eram opostos em quase todos os aspectos. “Havia um certo homem rico que se vestia de púrpura e linho fino”, explicou Jesus (Lucas 16:19). A mesa do homem rico também era regularmente posta com banquetes, e ele desfrutava de toda variedade de iguarias requintadas.

Lázaro, por outro lado, era pobre. Ele usava trapos como roupa e estava sempre faminto — tão faminto que se deitava na rua, bem em frente aos portões do homem rico, na esperança de que fosse “alimentado com as migalhas que caíam da mesa do homem rico” (v. 21). Não se engane: Lázaro não esperava uma caixa de sobras para levar. Ele queria os restos da pá de lixo que a empregada varria após o jantar. E para ilustrar ainda mais o quão desesperadora era sua situação, Jesus acrescentou: “Além disso, os cães vinham e lambiam suas feridas”.

Embora esses dois homens morassem muito próximos um do outro, levavam vidas opostas. No entanto, uma coisa era igual: ambos morreram. O que Jesus disse em seguida em Sua parábola chocou a mente de todos os que ouviam: o pobre “foi levado pelos anjos para o seio de Abraão”, enquanto o rico foi encontrado no Hades, sofrendo tormento (vv. 22, 23).

De seu lugar nas chamas, o homem rico olhou através do abismo cósmico para ver Lázaro ao lado de Abraão. Era insuportável. “Pai Abraão, tem misericórdia de mim!”, clamou o homem rico. “Manda Lázaro molhar a ponta do dedo na água e refrescar minha língua; pois estou atormentado nesta chama” (v. 24).

“Filho”, respondeu Abraão, “lembra-te de que, em vida, recebeste os teus bens, e Lázaro, os males; mas agora ele é consolado e tu estás atormentado. E, além de tudo isso, entre nós e vós há um grande abismo fixo, de modo que aqueles que querem passar daqui para vós não podem, nem aqueles de lá podem passar para nós” (vv. 25, 26).

Mas o homem rico não parava de gemer. Ele então disse: “Peço-te, pois, pai, que o envies à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos, para que ele lhes testemunhe, a fim de que também eles não venham para este lugar de tormento” (vv. 27, 28).

E, mais uma vez, Abraão o repreendeu, dizendo: “Eles têm Moisés e os profetas; que os ouçam” (v. 29).

“Não, pai Abraão”, insistiu o homem rico, “mas se alguém dos mortos for até eles, eles se arrependerão” (v. 30).

Mas Abraão não se deixou convencer. “Se não ouvem Moisés e os profetas, tampouco se persuadirão, mesmo que alguém ressuscite dentre os mortos” (v. 31).

O que Jesus quis dizer com uma história tão angustiante?

Dependendo de quem você perguntar, você obterá interpretações amplamente diferentes, tão diferentes umas das outras quanto o homem rico e Lázaro! Por exemplo, muitos têm usado essa passagem como evidência de que, ao morrer, os impenitentes vão diretamente para um fogo infernal que arde eternamente, enquanto os salvos vão direto para o céu. Outros dizem que a história é meramente uma ilustração, uma metáfora, de outros princípios divinos, e que Jesus, na verdade, tinha ideias diferentes sobre o que acontece na vida após a morte.

Então, qual é a verdade? Qual é a visão mais bíblica do que está acontecendo? Vamos examinar isso mais de perto.

O que isso não significa

A história do homem rico e de Lázaro vem depois de uma série de parábolas cuidadosamente contadas, que são contos fictícios usados para ilustrar lições espirituais. As parábolas são uma ferramenta de ensino que Jesus usava habitualmente. “Todas essas coisas Jesus falou à multidão em parábolas; e sem uma parábola Ele não lhes falava” (Mateus 13:34).

Nossa compreensão dessa história depende de saber se trata-se de uma parábola ou se Jesus passou de uma série de lições figurativas para algo literal. Por exemplo, alguns argumentam que o uso de um nome específico por Jesus, Lázaro, é uma pista de que Ele estava falando literalmente.

No entanto, o nome Lázaro é, na verdade, a tradução grega do nome hebraico Eliezer, o nome do fiel servo de Abraão (Concordância de Strong, 2976). Era um nome comum para os filhos israelitas. (Era o nome do segundo filho de Moisés com Zípora, por exemplo, e o nome de um profeta em 2 Crônicas.) Não seria surpresa que Jesus usasse esse nome em conexão com Abraão, e isso é uma forte pista de que se trata, de fato, de uma parábola. Vejamos mais algumas pistas…

1. No Evangelho de Lucas, Jesus conta duas outras parábolas que começam da mesma maneira, referindo-se a um homem rico. “Ele lhes contou uma parábola, dizendo: ‘A terra de um certo homem rico produziu abundantemente’” (Lucas 12:16). E: “Havia um certo homem rico que tinha um administrador…” (Lucas 16:1). Da mesma forma, a figura central dessa história não é Lázaro, mas o homem rico sem nome.

2. A história de Jesus diz que o homem rico no Hades queria uma gota de água para refrescar a língua. Se um radiador está superaquecendo, de que adianta uma única gota de água? Da mesma forma, uma gota de água ofereceria algum alívio nas chamas do inferno? Podemos presumir com segurança que Jesus está usando hipérbole.

3. Diz-se que, após sua morte, Lázaro foi levado para o seio de Abraão. É claro que os anjos não levam literalmente as pessoas salvas para o seio de Abraão. Podemos presumir com segurança que essa é mais uma figura de linguagem.

4. Diz-se que Abraão e o homem rico são capazes de conversar entre si. Mas será que aqueles que estão no paraíso seriam realmente capazes de ver, ouvir e falar com os perdidos que se queimam no fogo do inferno? Seria realmente um paraíso ver seus entes queridos perdidos queimando e não poder ajudá-los? Mais uma vez, podemos assumir com segurança que Jesus estava pintando uma ilustração, não registrando fatos.

A interpretação mais racional dessa história é que ela também é uma das muitas parábolas que Jesus conta para ilustrar verdades divinas. Essa é a posição de muitos estudiosos históricos da Bíblia, incluindo aqueles que acreditavam que as pessoas vão para o céu ou para o inferno logo após a morte.

Em 1862, por exemplo, o famoso presbiteriano Albert Barnes escreveu: “Muitos supuseram que nosso Senhor aqui se refere a uma história real e relata a vida de algum homem que viveu dessa maneira. Mas não há evidência disso. É provável que essa narrativa deva ser considerada uma parábola” (Notas, Explicativas e Práticas, sobre os Evangelhos).

Também comentando sobre essa passagem, o batista John Gill disse: “Na cópia mais antiga de Beza, e em outro manuscrito dele, lê-se, a título de prefácio, ‘ele disse também outra parábola’: o que mostra que não se trata de uma história factual, nem de um relato histórico sobre duas pessoas tais” (Exposição de Toda a Bíblia). Muitos outros teólogos ao longo da história compreenderam que esta história é uma parábola, contada por Cristo para transmitir verdades espirituais.

Mais importante ainda, podemos ter certeza de que os ouvintes de Jesus naquele dia teriam entendido que se tratava de uma parábola. A palavra “Hades” era bem conhecida como um termo emprestado da mitologia grega. Nesses mitos, Hades era tanto o nome do submundo quanto o nome do deus responsável por aquele lugar.

Em uma das 14 escolas que frequentei quando jovem, participei de uma peça sobre mitologia grega. Recebi o papel de Plutão — o nome romano para Hades. De fato, muitas de nossas concepções modernas sobre o inferno são influenciadas pela mitologia grega e romana; a igreja medieval adotou tais visões, confundindo a verdade sobre o inferno. Mas, para os ouvintes judeus de Jesus, a palavra Hades teria indicado que Ele estava falando em metáfora.

Eu poderia até fazer a mesma coisa agora. Se eu começasse uma história dizendo: “Um dia, Alice entrou no País das Maravilhas”, você entenderia imediatamente que eu não estava contando uma história literal. Em nossa cultura, a maioria das pessoas conhece o conto de fadas de Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas. Da mesma forma, o povo judeu teria reconhecido Hades como um mito grego e que Jesus o estava usando para ilustrar.

O que o resto da Bíblia diz?

Também podemos saber que se trata de uma parábola comparando-a com outras partes das Escrituras, incluindo as próprias crenças de Jesus, claramente expressas. É sempre perigoso basear uma doutrina inteira em um único texto, e quanto mais investigarmos esse assunto, descobriremos que o restante das Escrituras deixa claro que a punição dos ímpios virá no fim do mundo.

Jesus disse: “Quem me rejeita e não recebe as minhas palavras tem quem o julgue — a palavra que eu falei o julgará no último dia”(João 12:48, ênfase minha). Quando aqueles que rejeitam Jesus são julgados? No último dia.

Além disso, Jesus afirmou claramente que os salvos não recebem sua recompensa até a ressurreição. “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia”(João 6:54, ênfase minha).

Jesus também contou uma parábola sobre o momento do julgamento final — e até mesmo deu Sua própria explicação, tornando difícil interpretar mal Sua intenção. Você encontra isso em Mateus 13:38–42. Nessa parábola, um agricultor semeou boa semente, mas um inimigo veio e semeou joio. Jesus explicou a lição, dizendo: “O joio são os filhos do maligno. O inimigo que o semeou é o diabo, a colheita é o fim dos tempos, e os ceifeiros são os anjos. Portanto, assim como o joio é recolhido e queimado no fogo, assim será no fim dos tempos. O Filho do Homem enviará os Seus anjos, e eles recolherão do Seu reino tudo o que ofende… e os lançarão na fornalha de fogo” (ênfase minha). Segundo Jesus, os ímpios serão lançados no inferno no fim deste mundo. Isso é um forte indício de que Jesus estava falando figurativamente na história de Lázaro.

Embora algumas pessoas possam se confundir ao tentar transformar a parábola do homem rico e Lázaro em uma descrição literal do que acontece na morte, podemos saber que Jesus tem um propósito totalmente diferente. A questão é: qual é o propósito da parábola do homem rico e Lázaro?

Dois temas

Uma coisa maravilhosa sobre as parábolas é que elas podem conter várias lições espirituais e múltiplas aplicações. A história do homem rico e de Lázaro é apenas um exemplo entre muitos; ela contém pelo menos duas lições espirituais para refletirmos.

Um tema é que nossas ações cotidianas têm consequências eternas. A capacidade de escolher a salvação não está disponível para nós após a morte. Outro tema é que Deus vê as pessoas de maneira diferente daquela como a humanidade pecadora as vê.

Como sempre, compreender o contexto é fundamental para entender uma passagem bíblica. O que aconteceu antes de Jesus contar essa parábola? Ele contou a parábola sobre um administrador injusto. Ele encerrou essa história com este resumo: “Nenhum servo pode servir a dois senhores; pois ou odiará um e amará o outro. … Não se pode servir a Deus e a Mamom” (Lucas 16:13). Os fariseus estavam ouvindo. A Bíblia diz que, quando ouviram as palavras de Jesus, “eles zombaram dele”. Por quê? Porque “eram amantes do dinheiro” (v. 14). Os fariseus afirmavam ser seguidores de Deus; davam a impressão externa de serem extremamente religiosos, seguindo obedientemente todas as supostas regras a fim de serem justos. No entanto, Jesus sabia que, em seus corações, eles amavam suas riquezas terrenas mais do que amavam a Deus — e isso sempre transparecia em suas ações.

Jesus então teceu uma advertência para abordar sua impureza espiritual: “Vocês são aqueles que se justificam diante dos homens, mas Deus conhece seus corações. Pois o que é altamente estimado entre os homens é uma abominação aos olhos de Deus” (v. 15).

Depois disso, Jesus conta a parábola do homem rico e de Lázaro. E, da mesma forma, nessa história, Ele incluiu temas que os fariseus precisavam ouvir. Mas eles não são apenas para os fariseus que viveram no primeiro século. Você e eu também precisamos dar ouvidos a essa parábola.

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